MOUSE: P.I. For Hire mistura noir e desenho animado em um FPS afiado
Se existem duas coisas neste mundo que eu adoro com força, são histórias noir de detetive em pulp e desenhos animados de traço elástico. Esses dois estilos mostram uma América dos anos 1920 e 1930 por ângulos opostos: um é sombrio e cansado, o outro é caótico e brincalhão. Eu gosto de qualquer tentativa moderna de reviver um dos dois, o que explica por que Cuphead vive aparecendo nas minhas conversas de família. Mas, até onde eu lembrava, nunca tinha visto uma tentativa sincera de juntar os dois em um mesmo jogo.
Foi por isso que MOUSE entrou tão fácil no meu radar. Desde o primeiro trailer, ficou claro que a Fumi Games estava preparando algo especial: um thriller criminal clássico visto por uma lente de personagens animais de pernas bambas e movimentos de borracha. O jogo não só entende bem os dois gêneros que inspira, como também entrega um tiro em ritmo de arcade bastante sólido. É o tipo de projeto que chama atenção antes mesmo de mostrar tudo.
Esta cidade está doente, e o remédio é mais queijo

MOUSE: P.I. For Hire conta a história de Jack Pepper, um detetive durão e ex-herói de guerra que atua na cidade de Mouseburg, habitada principalmente por ratos e outros bichos de aparência semelhante. Em uma noite aparentemente comum, Jack é chamado pela jornalista Wanda para investigar o desaparecimento de um mágico local e acaba se envolvendo em uma trama de corrupção, tensão política e muito, muito queijo. A premissa é absurda no papel, mas o jogo a trata com uma seriedade deliciosa. Isso ajuda a vender o clima de cinema policial sem abrir mão da graça visual.
Uma das coisas que mais funciona aqui é o tom seco do roteiro. O jogo não se apoia em piadas metalinguísticas o tempo inteiro para justificar sua estranheza, e isso faz diferença. Troy Baker encara Jack Pepper como se estivesse narrando um caso perdido em um beco molhado pela chuva, mesmo quando está falando de queijo derretido e comparações improváveis. O resultado é um protagonista engraçado sem perder a pose de detetive de romance barato.

Mesmo com todo o visual cartunesco, MOUSE também carrega uma camada de escuridão bem marcada. Existe um partido político em ascensão, a população de musaranhos é tratada como algo descartável e as forças de governo e de policiamento de Mouseburg são escancaradamente corruptas. Jack, por sua vez, acaba empurrado para o meio desse caos e precisa seguir em frente quase sempre sozinho. Essa base dramática dá peso ao universo e impede que tudo vire apenas uma brincadeira de animação antiga.
Esse equilíbrio é um dos maiores méritos do jogo. As referências ao pulp clássico estão ali o tempo todo, com aquele herói cansado, frases afiadas e uma cidade que parece sempre à beira do colapso. Ao mesmo tempo, os trocadilhos com queijo, os bichos de cara elástica e o exagero visual aliviam a dureza da trama na medida certa. MOUSE entende que noir funciona ainda melhor quando o absurdo ao redor é tratado com convicção.
Tenho dois projéteis comigo: um na arma e outro de fondue

MOUSE: P.I. For Hire é um FPS acelerado, e o paralelo mais óbvio é DOOM. Ao sair do escritório de Jack e partir para um caso, você percorre fases lineares formadas por corredores e arenas compactas, sempre empurrando a ação para a frente. Nessas áreas, surgem inimigos variados que precisam ser abatidos com rapidez, enquanto você avança até o próximo ponto de interesse. A estrutura é direta e muito eficiente.
O jogo também aposta com vontade na ideia do arsenal variado, aquela filosofia em que trocar de arma faz parte da diversão tanto quanto atirar. Você começa com uma pistola simples e com os “punhos” de Jack, chamados de “mitts”, um detalhe excelente. Conforme progride, o conjunto vai ficando mais maluco, com armas como o Devarnisher, que dispara um tipo de solvente, e o enorme Loose Cannon, montado no ombro. É uma progressão que mantém cada nova descoberta interessante.

O combate também gira muito em torno de mobilidade e evasão. Não há cobertura, nem regeneração automática de vida, então a solução é entrar e sair da linha de tiro com uma investida rápida, usando o espaço do cenário a seu favor. Quando a saúde aperta, Jack pode beber tônicos genéricos ou devorar um bloco de queijo mole para se recuperar. Essa simplicidade deixa tudo mais gostoso de controlar e ainda abre espaço para melhorias como o salto duplo e o uso do rabo como um pequeno helicóptero.
Bom, ruim; todo mundo fica igual com uma bigorna na cabeça

O desenho dos cenários é parte central do charme do combate. Durante as lutas, dá para explodir barris cheios de substâncias corrosivas, chutar objetos perigosos e até disparar contra armadilhas suspensas, como bigornas e pianos, para vê-los despencar sobre os inimigos. O efeito é quase sempre engraçado, mesmo quando a situação está tensa. É uma forma esperta de reforçar a fantasia cartunesca sem enfraquecer a ação.
Algumas áreas ainda oferecem power-ups curiosos, como uma pimenta que faz todos os tiros incendiarem os inimigos ou uma lata de espinafre que transforma os braços de Jack em algo enorme e absurdo. Esses bônus ajudam a quebrar a rotina entre uma troca de tiro e outra. O jogo entende bem o valor de um exagero bem colocado. Tudo parece feito para provocar um sorriso rápido antes de pedir que você continue atirando.
Explorar também vale a pena, porque MOUSE não depende só da rota principal. Sempre existe um caminho crítico fácil de seguir com a ajuda do traço de detetive de Jack, o que deixa espaço para investigar desvios, esconderijos e recompensas extras. O jogo ainda sinaliza com sinos de ringue quando uma briga começa e termina, então fica fácil saber quando é hora de lutar e quando é hora de vasculhar o cenário. Essa leitura clara do ritmo ajuda muito a manter o fluxo da campanha.

Explorar os níveis com cuidado rende todo tipo de recurso colecionável, como plantas de armas, jornais de Mouseburg, tirinhas e montes de dinheiro. Alguns segredos ficam trancados atrás de portas e cofres, que você abre com um mini-game em que Jack usa o rabo como uma espécie de chave improvisada. Esses desafios não são difíceis, mas algumas vezes eu demorei demais e perdi o acesso a certas áreas secretas. A boa notícia é que o jogo ainda oferece uma compensação nesses casos.
Um bom detetive usa mais de um chapéu

Na lojinha ao lado do escritório de Jack, ou em alguns bares espalhados pelo mapa, você pode gastar o dinheiro acumulado para comprar jornais e quadrinhos que deixou passar. Isso é ótimo para quem não quer ficar com a sensação de ter perdido conteúdo por causa de um único cofre mal aberto. A função é simples, mas conversa bem com a lógica de coleção do jogo. Nada aqui parece jogado fora sem necessidade.
Esse lado opcional também se conecta ao minijogo de cards de beisebol, uma das atividades paralelas mais importantes da campanha. Você pode enfrentar partidas em tavernas e transformar vitórias em tokens que rendem uma recompensa especial. Eu normalmente não me empolgo com esse tipo de extra, mas aqui a execução é tão amigável que acabou valendo a pena seguir até o fim. É conteúdo lateral feito para complementar, não para atrapalhar.

Se você conversar com os NPCs ao redor do escritório de Jack, vai encontrar falas bem sacadas, histórias mais amargas e algumas missões paralelas. Em geral, essas tarefas pedem que você procure algo em uma fase específica, quase sempre em um estágio que já está no seu caminho. Elas rendem dinheiro, tokens e outros recursos úteis, sem exigir muito esforço para rastrear o objetivo. A bússola da interface também ajuda bastante ao apontar interações próximas.
Você encontra gente interessante nessa profissão

Eu já citei a atuação de Troy Baker como Jack, mas o restante do elenco também merece destaque. Há muita fala exclusiva espalhada pelo jogo, tanto nas conversas casuais com NPCs quanto nos comentários que Jack solta enquanto explora as fases. Os inimigos comuns repetem algumas frases, mas o volume baixo faz com que isso quase nunca incomode. Nas lutas contra chefes, a repetição aparece um pouco mais, mas o conjunto continua divertido o bastante para compensar.
No áudio, MOUSE ainda entrega um detalhe muito caprichado logo na primeira inicialização: um perfil visual e sonoro que permite reforçar grão de filme na imagem e acrescentar um efeito mais antigo às vozes e aos efeitos. É como se tudo estivesse sendo reproduzido de um disco de vinil ou de um cilindro de cera. O recurso é opcional, então ninguém precisa ativá-lo se não gostar desse tipo de textura audiovisual. Mesmo assim, ele mostra o quanto os desenvolvedores se preocuparam em capturar a atmosfera da época.

Sendo bem direto, é difícil encontrar algo realmente grave para reclamar de MOUSE. O único ponto que chega mais perto de uma crítica forte é o fato de a dificuldade normal parecer um pouco baixa demais. Ainda assim, isso é fácil de contornar caso você queira aumentar o desafio. Diante do que o jogo entrega, é um detalhe pequeno.

Considerações finais
MOUSE: P.I. For Hire junta três nostalgias de um jeito muito cuidadoso: noir, animação antiga e FPS veloz. O resultado é um jogo rápido, responsivo e divertido, que prende tanto pela ambientação quanto pelo combate. A história e os personagens têm o charme de um romance policial de banca, mas sem abandonar o humor visual e a violência cartunesca. Não é uma revolução para o gênero, mas também não parece querer ser. O teste foi feito no PC, onde a fluidez do conjunto ajuda ainda mais a vender a fantasia.

Testado no PC.








Pontos fortes e fracos
- Combate FPS rápido e responsivo
- Muitas áreas secretas e conteúdo lateral
- Atuação de voz excelente em todo o elenco
- Ótima fusão entre suas duas inspirações principais
- Dificuldade normal um pouco fácil demais
- Algumas falas repetidas nas lutas contra chefes
Sou entusiasta de Tecnologia, Gamer, Blogueiro e Editor do Portal do Pixel.