Como personagens de videogame me ajudaram a iniciar a autocura
Aviso de spoiler

Aviso de spoiler para Baldur’s Gate 3. Este texto comenta acontecimentos importantes do jogo que podem estragar a experiência de quem ainda não jogou. Se pretende jogar sem surpresas, siga com cautela ou retorne depois da sua própria jornada. Para quem já conhece, compartilho como esses personagens impactaram meu processo pessoal de cura.
Terapeuta, videogames e uma percepção tardia
Passei anos em terapia com profissionais que validaram minha compreensão dos próprios padrões, mas raramente explicaram como lidar com o peso emocional que eu carregava. Uma das descobertas mais duras foi identificar uma crença central que regia meus pensamentos: “não sou suficiente”. Ver esse mecanismo exposto foi um choque e, ao mesmo tempo, o primeiro passo para mudar. Parte da minha recuperação veio de uma fonte inesperada: personagens dos videogames que passaram a funcionar como espelhos. Jogar me deu espaço para experimentar cuidado, compaixão e escolhas diferentes sem o risco imediato de expor minha vulnerabilidade no mundo real.
Personagens de conforto como reflexos
Por “personagens de conforto” entendo figuras que, por design ou interpretação pessoal, ressoam com aspectos íntimos da minha experiência. Para mim, eles não são apenas escapismo: representam partes de mim que preciso reconhecer e tratar com mais delicadeza. Curiosamente, tratei esses personagens com um carinho e paciência que não dava a mim mesma. Essa diferença revelou um padrão claro: consigo oferecer aos outros — mesmo fictícios — o que nego ao meu próprio eu.
Astarion: confrontando medo e desejo de salvação

Em Baldur’s Gate 3, meu envolvimento com Astarion foi visceral; senti um desespero real diante da possibilidade de ele se tornar um Ascendant vampírico. A angústia que senti ao ver seu caminho se desenrolar era, na verdade, reflexo dos meus próprios medos antigos. Ao tentar afastá-lo desse destino, percebi que estava tentando salvar uma parte de mim que temia repetir padrões dolorosos. A jornada dele para recuperar agência teve um efeito simbólico e libertador sobre minha própria capacidade de escolher diferente.
Escolhas, poder e a armadilha da vingança
Tentar vencer o agressor pelas mesmas regras que ele impõe costuma levar à perpetuação do sofrimento, não à cura. No jogo, assumir que derrotar Cazador significaria ser melhor apenas alimentaria outra identidade baseada em raiva e controle. Preferi buscar uma rota que permitisse liberdade sem reproduzir a violência que havia marcado sua história. Ver Astarion escolher sua própria vida após séculos de manipulação foi um alívio que ecoou fora da tela.
Futaba: labirintos internos e memórias reconstruídas

Em Persona 5, a experiência com Futaba Sakura trouxe uma representação quase literal do processo terapêutico: explorar memórias embaralhadas dentro de um palácio que funcionava como um túmulo emocional. A cada segmento que desvendávamos, ela começava a reconstruir uma narrativa que a tinha aprisionado na crença de ser um fardo. Isso me falou diretamente: ver a materialização do trauma como algo que pode ser tocado, falado e reorganizado facilitou minha própria comunicação sobre o que havia dentro da minha “própria sala trancada”. Futaba foi a primeira a oferecer um mapa visual do meu processo mental, e isso me ajudou a começar a descrever o que estava acontecendo por dentro.
Emet-Selch e o peso imenso da perda

Em Final Fantasy XIV, Emet-Selch surgiu como uma figura cuja dor profunda e perda moldaram motivações complexas, e isso me sensibilizou de maneira inesperada. A cidade ilusória de Amaurot ilustra como alguém pode congelar emoções e criar um refúgio de memórias que, ao mesmo tempo, aprisiona. Ver sua melancolia e os retalhos de amor que persistem mesmo depois de séculos despertou empatia em mim por formas de luto não resolvido. Essa identificação me levou a reconhecer que, se não processarmos certas perdas, podemos construir mundos internos que nos impedem de seguir adiante.
Da tela para a vida

À medida que os jogos se tornavam mais imersivos, cuidei dessas projeções internas tanto virtualmente quanto fora das telas. Passei a aplicar a mesma paciência, curiosidade e compaixão que dedicava aos personagens ao meu próprio processo de autocuidado. A fala de Astarion sintetiza bem a virada que vivi: “Decidi não ser definido pelas escolhas que outras pessoas fizeram — meu passado pode ter acabado, mas meu presente e meu futuro são meus.” Essa noção de recuperar agência foi determinante para eu começar a me tratar com mais gentileza e responsabilidade. Seguir em frente significa reconhecer as partes feridas, acolhê-las e permitir escolhas que reflitam quem quero ser agora.
Sou entusiasta de Tecnologia, Gamer, Blogueiro e Editor do Portal do Pixel.